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Joana Ventura Lourenço

Joana Ventura Lourenço

És Miguel ou comes palha?

Quando a polémica começou e o assunto se tornou mediático, assumi que iria ler um artigo do JMT sobre ele. Não duvidei também que iria dizer aquilo que disse: uma pessoa diz e pensa o que quiser e o seu trabalho não deve ser afetado por isso.

Mas a defesa ou condenação do fundador da Prozis vai mais longe do que isso. Nas inúmeras discussões que inundam esta internet, colocam-se sempre dois pólos em oposição: o fundador, o rapaz (que aparentemente tem uma visão mais conservadora do que a que estamos já habituados) que construiu do nada uma empresa bem sucedida e que tanto mérito traz para este país que acredita não merecer mérito, e do outro as influencers, maioritariamente mulheres, pintadas muito vezes como fúteis, vazias e superficiais.

E é isto que incomoda. É fácil catalogar estas influencers como tipicamente se categorizam as mulheres - um jarro vazio com olhos. Mas se pensarmos que o seu trabalho é a sua imagem e mostrar a sua vida e costumes, cortar relações, nem que seja apenas publicamente, com uma marca que vai contra o que elas acreditam, faz mais do que sentido. E sim, certamente existirão mais fundadores, CEOs e acionistas de empresas cujas ideias vão contra as mais progressistas e feministas, mas grão-grão. Este evento também levanta a oportunidade de relembrar que o dinheiro comanda as grandes decisões tomadas no mundo, desde a sustentabilidade aos direitos humanos, por isso, sim, faz sentido “cancelar” empresas ou pessoas bem sucedidas se estas colocarem em risco progressos realizados - com grandes custos - no passado.

Eu acreditava piamente que o comentário isolado do Miguel Milhão não traria nenhum mal ao mundo e que até não iria causar grande mossa na marca da Prozis, mas admito que o circo montado posteriormente com o fundador a esmiuçar o seu ponto de vista e a clarificar objetivamente que pouco se importa com a saúde e bem estar femininos, tenha de ter tido o seu impacto. Gostava de ser uma mosca na sala de investidores.

Até assistir por entre os risos do David Bruno ao live do Podcast recentemente criado com um nome de nível - Conversas do Karalho, não planeava abdicar da minha manteiga de amendoim, mas admito que ouvir “se a minha mulher ou filha fossem violadas, falavas com elas para ficarem com o bebé” estragou o sabor da mesma.

“Parece que os bebés que ainda não nasceram têm os seus direitos de volta nos Estados Unidos! A natureza está a curar-se”. Têm sim, direito a nascer no seio de uma família que não os quer, de uma mãe que não quer ser mãe, que não tem saúde mental ou física para ser mãe, que não tem dinheiro para ser mãe, que morre, que vai culpar o filho do seu insucesso na carreira e corpo em mudança, que vai abandoná-lo ou, com menor probabilidade, o vai amar e cuidar, após aceitar o seu destino.

 

Nota: estive para dar o nome "Conversas da Kona" a este artigo, mas abstive-me porque apesar de lutar contra as ideias retrógradas de que uma senhora com classe não diz palavrões, perdi.

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